Anemia falciforme foi invisibilizada pelo racismo, mostram entidades

Rui Gonçalves • 19 de junho de 2023

Ele insistiu, perturbou, implorou. Elvis Magalhães, de 21 anos, não iria desistir. Estava internado no Hospital Universitário de Brasília (HUB), por causa da anemia falciforme, e não deixou em paz a médica até que ela permitisse que ele fosse para o show da banda favorita, a Legião Urbana, naquele 18 de junho de 1988 (há 35 anos), no Estádio Mané Garrincha, com cerca de 50 mil pessoas.


Mas a apresentação terminou em confusão e antes do tempo previsto. O jovem goiano radicado em Brasília, e com nome de astro do rock, saiu encolhido. Teve medo. Além da situação, sentia as dores no corpo causadas pela doença. Mas não se arrepende. "Nem foi tempo perdido. Somos tão jovens", cantou Renato Russo para alegria de Elvis.


Elvis também queria cantar, se divertir. “A música da minha vida é aquela. Quem acredita sempre alcança" (Mais uma vez, da Legião Urbana). Além das lembranças do show, junho virou um mês forte para ele por outro motivo. O dia 19 viria a ser, a partir de 2008, o da conscientização mundial sobre a doença falciforme. Junho virou mês de cantar mais alto. 


Elvis faz o som ir longe contra o racismo (a maior parte dos pacientes é negra) e também a invisibilidade que, segundo ele e outras pessoas consultadas pela Agência Brasil, comprometem o atendimento no sistema público.


O ativista e coordenador científico da Federação Nacional das Associações de Pessoas com Doença Falciforme (Fenafal) foi o paciente mais velho do Brasil a receber o transplante de medula óssea para se curar da doença.


A anemia falciforme tem característica hereditária (pode passar de pais para filhos, se ambos os genitores tiverem o traço da doença). Ocorre por causa de uma mutação genética, com a alteração no formato das hemácias (formato de meia-lua ou foice).


Isso gera um problema na produção da hemoglobina, proteína que dá a cor vermelha ao sangue e é responsável por transportar o oxigênio pelo corpo. A doença ocorre por lesões vasculares e anormalidade na coagulação. Entre os sintomas, dores fortes pelo corpo e cansaço.


Transplante

Hoje, aos 56, o ex-relojoeiro diz que nunca deixou de acreditar e insistir com outras pessoas na luta contra a doença, que causa dores fortes e que pode levar à morte. Após “centenas de internações”, ele foi curado graças a um transplante de medula óssea (mais tarde também precisou receber um fígado). 


Elvis pede políticas públicas e denuncia que a doença é invisibilizada pelo racismo estrutural. “A doença foi diagnosticada há mais de um século e só foi avançar nas políticas públicas em 2005”, afirma.


Impacto

A médica Joice Aragão de Jesus, coordenadora de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde, também entende que a história do cuidado com a doença mostra que o problema não ganhou a atenção devida em vista de os pacientes serem da população negra e de maior vulnerabilidade.


“O racismo institucional é um processo sutil na população brasileira. Isso tem impacto também na qualidade da assistência prestada a essa população”.


Ela diz que até 2005 não existiam protocolos no Sistema Único de Saúde (SUS), com orientação de tratamentos. “Naquele ano foi publicada a primeira portaria criando a Política Nacional de Atenção Integral às pessoas com Doença Falciforme”.


Daí em diante, foram estabelecidos protocolos de tratamento de cuidados na rede de hemocentros. “De 2005 a 2015, houve participação e realização de simpósios internacionais e nacionais. Então a doença ganhou mais visibilidade dentro da emergência dos hospitais e nos ambulatórios”.


Ela considera que, nos últimos anos, houve uma desativação de políticas públicas e menos atividades de capacitação e pesquisa. “De fato, há um impacto não só pela pandemia. Houve um arrefecimento nas atividades referentes às políticas públicas”. 


A médica diz que o atual programa é uma referência como política de qualidade dentro do SUS.


“Nós tivemos uma projeção internacional em cooperação com países da África, por exemplo (leia mais aqui sobre o tema). Agora, estamos retomando. A ciência tem possibilitado melhoria na qualidade de vida. Nós mudamos a história natural da doença, que era de morrer até os cinco anos de idade”.


Pouca divulgação

A cientista social Maria Renó Soares, coordenadora da Federação Nacional das Associações de Pessoas com Doença Falciforme (Fenafal), que reside em Belo Horizonte (MG), lamenta a baixa visibilidade da enfermidade. “Mesmo sendo a doença hereditária com maior prevalência no Brasil, pouco se fala. Por ser prevalente na população negra, é pouco divulgada. A gente ainda tem muita dificuldade de acesso ao tratamento. E isso se dá devido ao racismo”, avalia. 


Ela explica que há uma estimativa de mais de 100 mil pessoas com a doença - “95% das pessoas com a doença são negras e a maioria é beneficiária do Bolsa Família. A maior dificuldade é de acesso ao tratamento, às medicações, às novas tecnologias. Principalmente no que diz respeito à urgência e emergência”. 


A cientista social lamenta que a mortalidade pela doença no Brasil ainda é muito alta. “Há sobrevida de pessoas de até 42 anos e a morte de mais de 30 mil pessoas por ano no Brasil, que poderiam ser evitadas se tivessem acesso ao tratamento adequado”.


Um dos medicamentos utilizados é a hidroxiureia, de alto custo e que deve ser distribuído pelos poderes públicos. A coordenadora da Fenafal diz que uma demanda importante é a autorização para que o Ministério da Saúde autorize o remédio já fracionado para a criança, a fim de evitar que haja a manipulação incorreta do medicamento a partir do mesmo remédio dado ao adulto. 


Uma política pública importante foi a possibilidade de o Teste de Pezinho poder fazer o diagnóstico precoce. Isso pode salvar a vida da criança, já que o tratamento pode ser iniciado mais cedo. 


Indicação do transplante

No caso de Elvis, os pais descobriram a doença quando ainda era criança. Ele conviveu com dores indefiníveis e incontáveis internações demoradas. O problema só foi resolvido com o transplante de medula óssea. Ele foi um dos primeiros casos no Brasil. “Fui indicado porque tinha muita crise de dor. Em 2005, fez o procedimento na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, na cidade de Ribeirão Preto (SP). 


Para realizar o transplante, ele descobriu que o irmão, Elder, quatro anos mais novo (que não tinha a doença) era 100% compatível. Atualmente, o coordenador científico da entidade de paciente com a doença explica que o procedimento tem sido feito até com compatibilidade de 50% entre paciente e doador. 


Elvis tinha 38 anos de idade quando se submeteu ao procedimento para colocar fim às crises em que precisava até de morfina para amenizar a dor. Outra terapia que o relojoeiro descobriu foi escrever. Fez uma autobiografia: Quatro décadas de lua minguante. 


Páginas especiais são dedicadas ao irmão. “Nunca briguei na vida com ele. Sempre foi um amigo. Tinha certeza de que ele era compatível”. O irmão, Elder, sabe que Elvis faria o mesmo por ele se precisasse. “Foi emocionante quando soube que poderia ajudá-lo”.


No Distrito Federal, por exemplo, o hemocentro cadastrou, durante o ano de 2023, 26.510 doadores de sangue. Já as pessoas cadastradas no banco de doadores de medula óssea foram 1.283 pessoas. Cabe ao hemocentro "o fornecimento de todos os hemocomponentes necessários para as transfusões demandadas no tratamento dos pacientes com doença falciforme".


A Fundação Hemocentro explica que o candidato à doação pode colher sangue e se cadastrar como doador de medula óssea no mesmo dia. "Nesse caso, basta agendar a doação e, no dia do atendimento, informar logo na primeira etapa que também deseja se cadastrar como doador de medula", esclareceu a entidade em nota.


Diagnóstico precoce

Se Elvis é do rock, o servidor público paraibano Dalmo Oliveira, de 56 anos, nascido em Guarabira e radicado em João Pessoa, aprecia o forró e as festas de São João, que ocorrem nesta época do ano principalmente em Campina Grande (PB). Ele é da Associação Paraibana dos Portadores de Anemias Hereditárias e foi diagnosticado com a doença quando era criança. 


“Só descobrimos porque minha mãe me levou para fazer exames em João Pessoa. A minha sorte é que o diagnóstico foi bem precoce para aquele momento. E isso me salvou e me deu uma qualidade de vida até hoje”. O tratamento limitava-se à transfusão de sangue. Lembra-se que precisou fazer transfusão de sangue até os 15 anos de idade. As crises foram diminuindo à medida que foi envelhecendo. E resolveu depois ajudar pessoas que entendiam pouco sobre a doença. 


“Como a doença atinge mais fortemente a população negra, existe ainda hoje uma negligência. Nos estados brasileiros onde a população negra é mais presente, a doença também é mais presente. Mesmo assim, a gente ainda encontra médicos e enfermeiros desinformados sem saber como tratar o paciente que chega à unidade”.


Ele diz que cobra muito das autoridades médicas que proporcionem e conscientizem sobre o aconselhamento genético para casais que pretendem ter filhos.“Um exame de sangue simples, que é a eletroforese da hemoglobina, gratuita pelo SUS, pode identificar se os pais carregam genes com possibilidade de ter um filho com a doença”. Dalmo tem cinco filhos. Nenhum deles tem a anemia falciforme.

19 de maio de 2026
A consulta pública: Nutricionista, queremos te ouvir, já está disponível! O Sistema CFN/CRN convida nutricionistas de todo o país a participarem da escuta sobre o novo Código de Ética e Conduta da(o) Nutricionista. A consulta pública já está aberta e pode ser acessada de forma simples: – pelo QR Code abaixo; – pelo site do CFN, na aba Consulta Pública na página inicial; – ou diretamente pelo link: https://consulta-publica.cfn.org.br/ A iniciativa reforça o compromisso institucional com o diálogo, a escuta qualificada e a construção coletiva, respeitando a diversidade de experiências que compõem a profissão. Nutricionista, queremos te ouvir. Sua participação é essencial para fortalecer uma atuação ética, responsável e alinhada aos desafios contemporâneos da Nutrição. Acesse e participe!
19 de maio de 2026
A produção científica nordestina ganhou destaque no Congresso Brasileiro de Nutrição (CONBRAN 2026) com a apresentação de pesquisas e experiências voltadas ao fortalecimento da Nutrição, da Segurança Alimentar e Nutricional e das políticas públicas de saúde. Os trabalhos apresentados abordaram temas estratégicos para a atuação profissional, como Atenção Primária à Saúde, alimentação escolar, obesidade infantil, fiscalização profissional e implementação de políticas públicas. As pesquisas evidenciam a diversidade de atuação da Nutrição e reforçam o papel da ciência na construção de práticas mais éticas, qualificadas e comprometidas com as necessidades da população. Entre os trabalhos apresentados, destacaram-se estudos voltados à educação alimentar e nutricional e à formação de profissionais da saúde. As pesquisas “Desmistificando dúvidas sobre orientações nutricionais entre profissionais de saúde: um relato de experiência” e “Conhecimento e percepção de autoeficácia e eficácia coletiva sobre o Guia Alimentar para a População Brasileira entre equipes multiprofissionais da Atenção Primária à Saúde”, desenvolvidas por Nayara Leite das Neves Meira Barbosa, Joice Alves Gaia, Rafael Rocha de Azeredo e colaboradores, discutiram estratégias de fortalecimento da atuação multiprofissional e de ampliação do conhecimento sobre alimentação adequada e saudável na Atenção Primária. Também integrou as apresentações o trabalho “Oficinas formativas e o fortalecimento do Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A na Atenção Primária à Saúde de Alagoas”, que abordou experiências voltadas à qualificação das ações de saúde pública relacionadas à suplementação e prevenção de deficiências nutricionais. No campo da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), os estudos apresentados trouxeram reflexões sobre os desafios da implementação das políticas públicas nos territórios. O trabalho “Entre a estrutura institucional e a execução de ações: desafios da implementação da Política de Segurança Alimentar e Nutricional nos municípios de Pernambuco” analisou obstáculos enfrentados pelos municípios na consolidação das ações de SAN. Já o estudo “Evolução das diretrizes da Política de Segurança Alimentar e Nutricional em Pernambuco: análise comparativa dos planos estaduais 2016–2019 e 2024–2027” discutiu mudanças e avanços nas diretrizes estaduais voltadas ao fortalecimento das políticas públicas de alimentação e nutrição. Outro tema de destaque foi a obesidade infantil. A pesquisa “Impacto da Estratégia Nacional de Prevenção e Atenção à Obesidade Infantil (PROTEJA) sobre o cuidado individual de crianças menores de 10 anos com obesidade: um estudo quase experimental” analisou os impactos das estratégias de cuidado voltadas ao acompanhamento de crianças com obesidade, contribuindo para reflexões sobre prevenção, cuidado integral e promoção da saúde na infância. A alimentação escolar também esteve presente entre os trabalhos científicos apresentados. As pesquisas “Adequação do Quadro Técnico de Nutricionistas na Alimentação Escolar: Uma Análise do Estado de Alagoas” e “Adequação do Quadro Técnico de Nutricionistas na Alimentação Escolar: Um Panorama no Estado de Pernambuco” evidenciaram a importância da presença adequada de nutricionistas na execução das políticas públicas de alimentação escolar, contribuindo para a qualidade da assistência alimentar ofertada aos estudantes. Já no campo da fiscalização profissional, o trabalho “O Panorama das Denúncias de Exercício Ilegal da Profissão de Nutricionista no Âmbito do CRN-6” apresentou uma análise sobre as denúncias relacionadas ao exercício ilegal da profissão, destacando a relevância das ações fiscalizatórias para proteção da sociedade e valorização da atuação ética e legal da Nutrição. Para o presidente do CRN-6, Rafael Rocha de Azeredo, a participação de profissionais e pesquisadores da região em espaços científicos nacionais fortalece a Nutrição e amplia o diálogo entre ciência, gestão e cuidado em saúde. “A produção científica é fundamental para fortalecer políticas públicas, qualificar práticas profissionais e ampliar o compromisso social da Nutrição com a população. Ver trabalhos da nossa região ocupando espaços de destaque no CONBRAN demonstra a potência da ciência produzida no Nordeste”, destacou. O CRN-6 parabeniza todos os autores e autoras envolvidos nos trabalhos apresentados e reafirma seu compromisso com a valorização da pesquisa científica, da formação qualificada e do fortalecimento das políticas públicas de alimentação e nutrição.
19 de maio de 2026
Nutricionista, sua participação é fundamental! Está aberta a consulta pública sobre o Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), uma importante política pública brasileira voltada à promoção da saúde, da alimentação adequada e da qualidade de vida da população trabalhadora. O momento é estratégico para que a categoria da Nutrição contribua com propostas, reflexões e apontamentos sobre os caminhos do PAT, especialmente diante dos desafios atuais relacionados à saúde do trabalhador, ambientes alimentares, qualidade nutricional das refeições e promoção da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN). A participação social fortalece as políticas públicas e amplia o reconhecimento do papel técnico e estratégico da(o) nutricionista na construção de sistemas alimentares mais saudáveis, sustentáveis e comprometidos com a saúde coletiva. Participe da consulta pública: Brasil Participativo – Consulta Pública do PAT O Conselho Federal de Nutrição (CFN) segue em diálogo permanente com o Ministério do Trabalho e Emprego e com o Ministério da Saúde sobre a temática. Mais recentemente, o CFN aprovou moção de apoio ao Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) durante a 5ª Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora, reafirmando o compromisso institucional com o fortalecimento desta importante política pública. Sua voz faz diferença. Participe e contribua com o futuro da alimentação do trabalhador no Brasil.
14 de abril de 2026
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, nesta segunda-feira (13/4), a apreensão de diversos produtos fitoterápicos de origem desconhecida. A medida também proíbe a comercialização, distribuição, fabricação, importação, propaganda, transporte e o uso dos produtos. Confira abaixo a lista de medicamentos irregulares: Canela de Velho; Canela de Velho com Sucupira; Canela de Velho com Sucupira Wra; Cloreto de Magnésio P.A + Sucupira + Canela De Velho Status Verde; Canela de Velho com Sucupira Natuviva; Suplemento Articular Canela de Velho Natuvite; Canela de Velho com Sucupira e Cloreto de Magnésio P.A. Natuviva; Canela de Velho com sucupira 100% Natural Fonte Verde; Canela de Velho Fito Green; Herbais Canela de Velho Denature; Canela de Velho com Cloreto de Magnésio Fonte Verde; Canela de Velho Sollo Nutrition; Canela de Velho Essentialpure; Canela de Velho Composta Ns Produtos Naturais; Canela de Velho, Canela De Velho Suplemento Maria Brasil. Os produtos estavam sendo vendidos e anunciados pela internet sem registro, notificação ou cadastro na Anvisa, além de serem fabricados por empresas desconhecidas. Mounjaro adulterado A mesma medida prevê a apreensão do lote D719674C do medicamento Mounjaro ® Kwikpen 15 MG, de responsabilidade da empresa 60.713.142 Juliana Salzano Di Bacco. Além da apreensão, a medida proíbe o armazenamento, a comercialização, a distribuição, a importação e o uso do produto. A empresa detentora do registro, Eli Lilly do Brasil Ltda, comunicou que a embalagem do medicamento tem um lote válido, mas é destinada a outros países (Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Catar). Já a caneta dentro da embalagem possui rótulo falsificado, com informações que não batem com os registros da empresa, ou seja, o medicamento foi adulterado Toxina botulínica A medida atingiu também os lotes P22179 e W26232 da toxina botulínica Dysport 500 U, da empresa Beaufour Ipsen Farmacêutica Ltda. Os produtos devem ser apreendidos e ficam proibidos de serem comercializados, distribuídos e utilizados. A empresa detentora do registro do medicamento, Beaufour Ipsen Farmacêutica Ltda, informou a identificação de unidades falsificadas, uma vez que os produtos não correspondem a lotes genuínos do produto Dysport® 500U. Foram identificadas ainda diversas desconformidades em relação às características do produto original, confirmando que se tratam de unidades falsificadas. Fonte: Anvisa
13 de abril de 2026
O Conselho Regional de Nutrição da 6ª Região (CRN-6) vem a público denunciar e repudiar as duas seleções públicas para o cargo de nutricionista realizadas pela Prefeitura de Caruaru (PE), no âmbito das Secretarias de Educação e de Saúde. As seleções escancaram uma prática inadmissível: a oferta de remuneração incompatível com a carga horária exigida e com as atribuições técnicas, sanitárias e éticas da profissão. Trata-se de um cenário que não apenas desvaloriza o nutricionista, mas também fragiliza diretamente políticas públicas essenciais, como a alimentação escolar e a atenção primária à saúde. É inaceitável que o próprio poder público reconheça, nos editais, a indispensabilidade do nutricionista para garantir a execução de programas estratégicos e, ao mesmo tempo, proponha condições de trabalho que precarizam o exercício profissional e colocam em risco a qualidade do cuidado ofertado à população. Essa prática configura desrespeito à categoria, afronta à dignidade profissional e ameaça concreta à efetividade do direito humano à alimentação adequada e à saúde. Diante da gravidade dos fatos, o CRN-6 informa que formalizará denúncia junto ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE), requerendo a apuração imediata das duas seleções, bem como a adoção das medidas cabíveis para correção das irregularidades identificadas. O CRN-6 não se calará diante de iniciativas que institucionalizam a precarização do trabalho em Nutrição. Valorizar o nutricionista é proteger a saúde da população.
9 de abril de 2026
A aprovação da PEC nº 383/2017, nesta quarta-feira (08), em primeiro turno na Câmara dos Deputados, representa um marco histórico para a consolidação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) no Brasil. O texto ainda será apreciado em segundo turno e, se aprovado, seguirá para o Senado Federal. Ao estabelecer a destinação mínima de recursos para o financiamento da política de assistência social, a medida reforça o compromisso do Estado com a proteção social e com o enfrentamento das desigualdades que atravessam o cotidiano de milhões de brasileiros. A aprovação da PEC sinaliza um avanço estrutural na garantia de direitos. O SUAS, que atua diretamente com populações em situação de vulnerabilidade, passa a contar com maior previsibilidade de financiamento, o que fortalece a continuidade e a qualificação dos serviços ofertados nos territórios, especialmente nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e Centros de Referência Especializados (CREAS). Nesse cenário, a Nutrição se afirma como dimensão estratégica no campo da assistência social. A insegurança alimentar, que ainda marca a realidade de muitas famílias brasileiras, exige respostas intersetoriais e a presença de profissionais qualificados para atuar na promoção da saúde, no cuidado e na garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA). A ampliação do financiamento do SUAS abre espaço concreto para o fortalecimento das equipes multiprofissionais, incluindo a inserção do nutricionista como agente fundamental nesse processo. A atuação do nutricionista no SUAS vai além da prescrição alimentar. Trata-se de um trabalho que articula escuta, território, cultura e políticas públicas, contribuindo para a construção de estratégias que respeitem os modos de vida das famílias e promovam autonomia e dignidade. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, reconhecer a alimentação como direito é também reconhecer a centralidade da Nutrição na produção de cuidado. Para o conselheiro Luiz Miguel, que atua diretamente no SUAS, a aprovação em primeiro turno representa um avanço concreto, mas também um chamado à continuidade da mobilização. “O fortalecimento do SUAS passa, necessariamente, pelo reconhecimento da alimentação como direito e pela presença de profissionais qualificados nos territórios. A aprovação desta PEC abre uma janela importante para que possamos avançar na estruturação das equipes e na garantia de um cuidado mais integral às famílias”, destacou.
9 de abril de 2026
O Encontro Alagoano de Conselhos de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEAs) reuniu, nesta quarta-feira (08), representantes da sociedade civil, gestores e trabalhadores para um dia intenso de debates, articulações e construção coletiva em torno do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA). O evento reafirmou o papel estratégico do controle social na formulação, monitoramento e fortalecimento das políticas públicas de Alimentação e Nutrição no estado. Logo na mesa de abertura, a presença institucional do Conselho Regional de Nutrição da 6ª Região marcou o compromisso da autarquia com a agenda da segurança alimentar e nutricional. Ao lado de diferentes atores do campo, o Conselho contribuiu para tensionar e qualificar o debate, destacando a urgência de ações estruturantes diante dos desafios ainda vivenciados no território alagoano. Ao longo de todo o dia, a atuação do CRN-6 se deu de forma contínua, propositiva e articulada. Os conselheiros Rafael Azeredo, Adriana Paffer, Anna Luna e Luiz Miguel participaram ativamente das discussões, trazendo contribuições técnicas, políticas e éticas que reforçam a centralidade da Nutrição na construção de respostas concretas para a população. Em cada fala, em cada intervenção, foi possível perceber uma presença atenta, implicada e comprometida com a transformação social. As discussões abordaram temas fundamentais como o enfrentamento da fome, a valorização da comida de verdade, o fortalecimento das políticas públicas intersetoriais e a necessidade de ampliar a participação social nos espaços de decisão. Nesse cenário, a atuação dos nutricionistas se destacou como elemento essencial para conectar conhecimento técnico à realidade vivida nos territórios. Mais do que acompanhar, o CRN-6 esteve em movimento, contribuindo ativamente para o fortalecimento dos CONSEAs como espaços democráticos de escuta, proposição e incidência política. "A participação no encontro reafirma o compromisso do Conselho com a defesa intransigente do direito à alimentação adequada e com a construção de um país onde comer bem não seja privilégio, mas garantia", destaca a conselheira Anna Luna, também articuladora do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) em Alagoas.
9 de abril de 2026
O Conselho Regional de Nutrição da 6ª Região (CRN-6) participou, nesta quarta-feira (08), de audiência promovida pelo Ministério Público do Estado da Paraíba (MPPB) para discutir possíveis inadequações no cardápio ofertado pela Secretaria de Educação de João Pessoa (PB). A reunião foi motivada por questionamentos relacionados à qualidade da alimentação escolar, com foco no cumprimento das diretrizes do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), política pública essencial para a garantia do direito humano à alimentação adequada no ambiente escolar. Representando o CRN-6, estiveram presentes a fiscal Danielle de Carvalho e a conselheira diretora Roberta Lins, que contribuíram tecnicamente com o debate, reforçando a importância da atuação do nutricionista na elaboração, execução e monitoramento dos cardápios escolares. Durante a audiência, foram discutidos aspectos relacionados à composição nutricional das refeições, à adequação às necessidades dos estudantes e à observância das normativas vigentes do PNAE. O Conselho destacou que a alimentação escolar deve ser planejada com base em critérios técnico-científicos, respeitando a cultura alimentar local e promovendo práticas alimentares saudáveis. Para a conselheira diretora do CRN-6, Roberta Lins, a atuação institucional é fundamental para assegurar a qualidade da alimentação ofertada nas escolas. “A alimentação escolar não pode ser tratada como um elemento secundário. Estamos falando de uma política estruturante, que impacta diretamente o desenvolvimento, a aprendizagem e a saúde dos estudantes. A presença do nutricionista e o cumprimento das diretrizes do PNAE são indispensáveis para garantir esse direito na prática”, destacou. O CRN-6 reafirma seu compromisso com a fiscalização do exercício profissional e com a promoção da qualidade da alimentação ofertada à população, especialmente no contexto escolar, onde a alimentação desempenha papel fundamental no desenvolvimento, aprendizagem e saúde dos estudantes. A participação em espaços institucionais como este fortalece o diálogo intersetorial e contribui para o aprimoramento das políticas públicas de alimentação e nutrição, assegurando que o direito à alimentação adequada seja efetivamente garantido nas escolas.
Por Nairton Severiano 7 de abril de 2026
A sobrecarga materna, o preço atraente e até componentes afetivos são alguns dos fatores sociais que impulsionam o consumo de alimentos ultraprocessados por crianças em comunidades urbanas de diferentes cidades brasileiras, segundo pesquisa divulgada nesta terça-feira (31) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O estudo entrevistou cerca de 600 famílias de três comunidades urbanas do país: Guamá, em Belém (PA); Ibura, em Recife (PE); e Pavuna, no Rio de Janeiro (RJ). Apesar de 84% dos entrevistados se considerarem muito preocupados em oferecer uma alimentação saudável para suas famílias, em metade dos lares os alimentos ultraprocessados faziam parte do lanche das crianças. Além disso, em um a cada quatro, algum desses produtos estava no café da manhã. Os produtos ultraprocessados mais presentes nas casas foram iogurte com sabor, embutidos, biscoito recheado, refrigerante e macarrão instantâneo. O que são ultraprocessados? Os ultraprocessados são produtos alimentícios de origem industrial, resultantes da mistura de ingredientes naturais com aditivos químicos, como corantes, aromatizantes e emulsificantes. Isso permite a fabricação de produtos de baixo custo, longa durabilidade e com sabores intensos, que viciam o paladar. Evidências científicas mostram que o seu consumo aumenta o risco de doenças como obesidade, diabetes, problemas cardíacos, depressão e câncer. Sobrecarga materna Nas famílias ouvidas pela pesquisa, 87% das mães exerceram a tarefa de comprar e servir o alimento às crianças, e 82% delas também foram responsáveis pela preparação. Já entre os pais, apenas 40% comprou alimentos, enquanto 27% cozinharam e 31% ofereceram a comida às crianças da casa. A oficial de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Stephanie Amaral, ressalta a sobrecarga das mulheres nos cuidados com a alimentação. "Muitas mães fazem isso sozinhas, além de trabalhar fora. É uma sobrecarga que acaba fazendo com que a praticidade dos alimentos ultraprocessados pese muito mais". Desconhecimento Outro ponto destacado pela pesquisa é o desconhecimento sobre os produtos ultraprocessados. Muitos alimentos que se enquadram nessa categoria foram apontados como saudáveis pela maioria dos entrevistados, como os iogurtes com sabor e os nuggets de frango fritos na airfryer. A nova rotulagem frontal dos produtos, que traz avisos quando eles têm grande concentração de sódio, açúcar e gorduras saturadas também não cumpre seu papel de forma integral: 26% dos entrevistados disseram não saber o que esses avisos significam. Além disso, 55% dos entrevistados nunca observam os avisos de alto teor no rótulo dos alimentos, e 62% admitem que nunca deixaram de comprar algum produto por causa deles. Preço baixo A percepção de preço também pode influenciar no consumo. A maioria das famílias (67%) considera que os sucos de caixinha, salgadinhos e refrigerantes são baratos. Já legumes e verduras são considerados caros por 68% delas, proporção que sobe para 76% no caso das frutas e 94% no das carnes. Os pesquisadores também fizeram entrevistas aprofundadas com algumas famílias e identificaram ainda um componente afetivo. "Essas pessoas não tinham dinheiro para comprar os alimentos que elas queriam quando eram crianças, então agora elas se sentem felizes por poder comprar o que a criança quer comer. E aí esses alimentos ultraprocessados, ainda mais aqueles com desenhos e personagens, são associados a uma infância feliz", explica Stephanie Amaral. A oficial de Saúde e Nutrição do Unicef destaca ainda que é mais difícil controlar o consumo no caso dos ultraprocessados, porque os danos que eles causam à saúde são cumulativos e não imediatos. Mesmo assim, ela acredita que as escolas podem contribuir de forma essencial: "As famílias mostram uma confiança muito grande na alimentação escolar, o que mostra como as escolas são importantes em oferecer o alimento saudável, mas também em promover essa alimentação para as famílias". Fonte: Agência Brasil
7 de abril de 2026
Nova diretriz da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) recomenda que o tratamento farmacológico não usado isoladamente, mas sempre associado a mudanças de estilo de vida, com aconselhamento nutricional e estímulo à atividade física. A orientação faz parte de documento que reúne 32 recomendações para o cuidado com a obesidade. O documento define como principais critérios para indicação da remédios o Índice de Massa Corporal (IMC) maior ou igual a 30 kg/m² ou IMC maior ou igual a 27 kg/m² em pessoas com complicações relacionadas à adiposidade. O IMC pode ser calculado no site da associação . Em situações específicas, o texto ainda admite considerar tratamento mesmo independentemente do IMC, quando há aumento da circunferência da cintura ou da relação cintura-altura associado a complicações. “O médico passou a lidar com um cenário terapêutico mais amplo e com decisões que exigem avaliação cada vez mais individualizada. Esta diretriz transforma esse avanço científico em orientação prática, oferecendo mais subsídio para a conduta clínica e mais segurança para o cuidado dos pacientes”, ressaltou o presidente da Abeso, Fábio Trujilho. A nova diretriz foi elaborada por um grupo multidisciplinar formado por endocrinologistas, clínicos gerais e nutricionistas e traz as orientações organizadas por classes de recomendação e níveis de evidência. “O documento traz direcionamentos para cenários como risco cardiovascular, pré-diabetes, doença hepática gordurosa, osteoartrite, câncer, deficiência de testosterona masculina, apneia do sono, perda de massa magra e muscular, o que aproxima a recomendação científica das perguntas reais do consultório”, destacou um dos coordenadores da nova diretriz, Fernando Gerchman. As novas diretrizes reforçam ainda os alertas sobre quando um medicamento não é indicado e chama a atenção para o uso de substâncias sem evidências robustas de eficácia e segurança demonstradas em ensaios clínicos, fórmulas magistrais e produtos manipulados para o tratamento da obesidade, incluindo formulações com diuréticos, hormônios tireoidianos, esteroides anabolizantes, implantes hormonais ou gonadotrofina coriônica humana (hCG). Fonte: Agência Brasil Foto: Divulgação